quarta-feira, 20 de abril de 2016


Sono.
A longa espera do dia me abate, me maltrata e bem-me-quer. Arde o olho, a face, a alma. E penso. Quantas mais vezes hei de erguer esses olhos que me corrompem? Quantas vezes sei o que me mantém na forçada dúvida de estar? Embargo.
Meia noite, quatro, duas, seis . Já não conto tão bem como antes . Talvez a solidariedade da noite me aqueça nos vãos que me fazem fria. Talvez eu a esfrie.
Sono. Sonho usar-te a meu favor, mas quem sabe quando tu és real? Escorre entre minhas mãos, sela minha face desbotada.
Escoro nos cantos, me debato em agonia. Sonho ou fantasia? É pranto.

domingo, 3 de janeiro de 2016


Eu o vi. Novamente o mundo caiu. E como num suspiro profundo, perdi o chão. Foi se esvaindo e tocou o céu.
Tão longe e tão breve.
O brilho nos olhos fez-se treva; a ânsia invadiu o que antes era calmaria. Sucumbi. Perdi o que me era real, a ilusão me pertenceu no imediato momento do toque. Foi brisa.
E assim, enquanto pairei no ar, dei de mim a melhor parte. Mistério.
Fui música e turbulência, corrida ao mar e desistência. Passei por ti aquela noite, e talvez não tivesse o necessário para me tornar visível - esperei ali quase a vida toda. Nada em vão. Acolhi o que me disseste, fui pedra em chuva. Ainda goteja em mim.
Eis que num estalo já não me achei. Foi você. Você me roubou de mim. E como num faroeste que há dias assisti, fui tragédia. Pura e louca.
Já não te vejo, não te sinto. E insisto em lembrar. No mesmo canto, no mesmo quebrar de ondas, no mesmo caminho que te vi cruzar com outros planos. Eu segui.
Assim, fui vento no deserto, ceguei meus planos. E os teus - bobagem minha citar você - foram caindo sem cessar. Assisti daqui também - que nada pude fazer. Foi como quis, deixei o verão passar- e talvez o resto das estações .
 Fui mar violento na tua calmaria. E agora tu vê de longe meu instante passar. Não sabe o quanto fui brisa pra te proteger.
Espero o teu número apagar, tua sombra deixar de me transcrever, teu breu raiar o dia. E não nego amor. A paz habita em mim.
Tenho em ti um pedaço da quimera perdida, um laço que deu nó, o cheiro do andar da vida. Ainda somos um só.
Te vi.
Ainda sou você.

domingo, 2 de agosto de 2015

O ar contaminado do pulmão exala. A triste arte volta a tona. A triste denúncia,a mesma de sempre. Estar e não poder enxergar o quão distante se pode ir. Prende mais, solta e então,como num súbito devaneio, expulsa de si o surreal- que nos habita qdo a esperança resiste. E se ela não está, quem daria o próximo passo?
Entre dúvidas e (in)certezas, eis que clareia o dia, como se tudo fosse renovado - e é decerto. Amor e afago, amola e afogo. Mar meu que tu navegas. Mais um trago e me traga de volta. Quero morar em mim.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Faça-se luz nesse oco do mundo. Tão grande e um vazio assombroso.
Faz bem teu riso sem culpa, sua alma lavada... E assim fez meu choro tua causa ou tu a causa dele. O mundo cresceu ou encolhemos nele?
Escuro dentro de mim. Tua porção amargou meu acalento, e mesmo desmoronando ergui o que me cabia sustentar: riso no lábio amargo do conchego.
Onde muito clareia também há cegueira.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Não é o que você veste que me atrai. Não é o que você come, do que tem fome... Não é a bela forma que te comporta, nem a capa que te oculta. O que me atrai não é dizível, não é cabível. Não me faz importar seu jeito pouco amável, suas falhas e devaneios, sua ânsia excessiva pelo inteiro. Não sei ainda o que realmente me atrai, mas tenho me traído por tentar entender. Não é a sua boca, que longe da minha não tem efeito algum. Nem seus olhos, que quando se viram me negam visão.
Tua febre me atrai. Tua mudez. E o reflexo de quando lembra o que realmente é. Tua alma desnuda, livre do mundo. Teu mundo que é meu. O que me atrai te faz longe.

domingo, 15 de janeiro de 2012

De tanto que te quis bem, meu bem, faliu meu coração... Te encontro em outras vidas, outros mares. Te revivo no sono eterno de cada noite, te faço dormir em meus braços, te acalento em mim... Mas já não posso dizer-te meu.
Meu riso estancou quando, ao ver-me partir, tu escolhestes outro rumo. Por hora, me dou por vencida. A fina neve que me cobre e me cabe, faz tua presença real e inegável.
Agora que me dou outra vida, vê se não esqueces o quanto poderia ter sido essa mão - a qual tanto desejastes - teu próprio leito, tua pausa serena do dia, teu recanto para quando já não pudesse acreditar no mundo (esse cruel que nos acolhe).
Meu bem, a vida renasce a cada dia, não o coração.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Tenho medo, que não só de esperanças vive o homem, mas também trago em mim uma parte desvairada que vibra com a solidão a dois, que pula de uma ponte e cai num abismo que cavo; uma parte que deixa escapar o que me mantém, deixando-se aperceber o dilúvio neste rio que me habita; uma parte mistério - que não me permito estar atirando minhas verdades...
Tenho em mim um grão do mundo perdido, que de vez em quando me toma inteira... E quando pareço íntegra, me permito uma forma de dizer o que não quero que saibam... Tomo em mim as dores de um mundo que esqueceu de viver, e vivo nele esquecendo. Esqueço-me quando tanta desilusão me toma, quando já não quero proclamar meu silêncio...
Vivo das tragédias e alegrias que minh'alma presencia, da lembrança terna de um afago, da tempestade quente desses olhos quando me vêem... Se me tomo perpétua, embrulho em meu leito o sorriso de criança fingindo luto. Luto que por vezes me faz tropeçar sem perceber que estive tanto tempo nestas pretas vestes.
Enfim [,] respiro a vida - salvo a parte ruim -, que me condena a mais uma valsa sem pés... Respiro a ganância de viver embriagada quando um só gole me faz cair...
E aspiro... A brisa da tarde que me espera de braços abertos para um novo anoitecer, sem perceber que hoje a noite não vem. É só mais um ano. E tenho medo...
As vezes parece que lutamos contra nós mesmos... Jeito besta de viver - tentando tirar a felicidade que ao mesmo tempo buscamos. E sem querer nos tornamos nossos próprios inimigos, com tanto medo do fracasso que preferimos fingir que está tudo bem do que buscar nossa paz interior. Lutamos contra todo um mundo e nos perdemos quando a batalha está dentro de nós... Jeito besta de viver - buscando o que nunca esteve longe, fingindo um sorriso pra mostrar pros outros o quanto estamos bem, e fingimos tão bem que caimos em nossas próprias armadilhas... Tudo porque tentamos a todo instante ser mais do que nos cabe, mostrar o quanto evoluimos, e acabamos prisioneiros tentando soltar as amarras das quais só se livra quem realmente enxerga o quanto estamos enganados... Porque elas foram criadas por nós na ânsia de buscar a liberdade, essa que se manifesta em meio a tantos devaneios... Jeito besta de tentar viver empurrando a vida, mentindo para si mesmo, como se ainda nos restasse tanto tempo... Como se estivéssemos deveras vivendo.